A recente recomendação da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) sobre mamografias gerou grande repercussão entre especialistas da área da saúde. O Conselho Federal de Medicina (CFM) e diversas entidades médicas manifestaram preocupação com a medida, que sugere que operadoras de planos de saúde incentivem o exame apenas para mulheres entre 50 e 69 anos, seguindo a periodicidade de dois anos. Atualmente, muitas operadoras oferecem o rastreamento anualmente a partir dos 40 anos.
Possíveis Impactos na Disponibilidade do Exame
Embora a ANS reforce que o programa de certificação para planos de saúde seja voluntário e que a mamografia continue disponível para todas as mulheres, especialistas alertam para possíveis impactos futuros. O receio é que a recomendação estabeleça um novo parâmetro que possa levar operadoras a restringirem o acesso ao exame fora da faixa etária indicada.
Segundo Cibele Alves de Carvalho, conselheira do CFM, aproximadamente 40% dos diagnósticos de câncer de mama no Brasil ocorrem em mulheres com menos de 50 anos. A limitação do rastreamento pode retardar a detecção precoce e comprometer a eficácia dos tratamentos. A identificação da doença em estágios iniciais reduz a necessidade de intervenções agressivas, como quimioterapia e radioterapia, além de minimizar os riscos de cirurgias mutilantes e diminuir custos para o sistema de saúde.
Evidências e Revisões Científicas
A recomendação da ANS tem como base diretrizes do Instituto Nacional de Câncer (INCA), que desde 2004 adota a mamografia bienal para mulheres de 50 a 69 anos no Sistema Único de Saúde (SUS). Em março de 2024, o INCA reavaliou a questão por meio da análise de 16 metanálises e oito ensaios clínicos randomizados. Embora alguns estudos tenham sugerido benefícios adicionais, a maioria das evidências não comprovou vantagens significativas na ampliação do rastreamento para mulheres abaixo de 50 anos ou acima de 69 anos.
De acordo com Roberto de Almeida Gil, diretor-geral do INCA, a eficácia da mamografia varia conforme a idade. Para mulheres entre 50 e 69 anos, o exame tem uma taxa de precisão de 88%, enquanto para mulheres mais jovens esse índice fica entre 53% e 77%. Isso sugere que o rastreamento fora da faixa etária recomendada pode não gerar benefícios concretos e sustentáveis.
O Debate Continua


Diante das reações contrárias, a possibilidade de reavaliação da recomendação não está descartada. O CFM e outras entidades médicas argumentam que a restrição pode prejudicar milhares de mulheres e defendem que a detecção precoce continue sendo uma prioridade. Caso necessário, novas revisões podem ser solicitadas junto à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), órgão responsável por validar diretrizes médicas no país.
A discussão segue aberta: a limitação do exame beneficiará o sistema de saúde ou colocará em risco a detecção precoce do câncer de mama?
O impacto da decisão será sentido nos próximos anos e pode redefinir o acesso ao rastreamento no Brasil.
Fonte: Estadão